Arte em Conchas: cultura, trabalho e sobrevivência no capitalismo contemporâneo

Cristiano das Neves Bodart

Resumo


O presente ensaio fotoetnográfico busca expor parte do ofício de artesãos, mais especificamente àqueles que trabalham com conchas e búzios do mar na produção de bibelôs na cidade de Piúma, a qual é conhecida como “Cidade das Conchas”; esta localizada no litoral sul do estado do Espírito Santo. Esse ofício é responsável pelo sustento de parte significativa das famílias que vivem nessa cidade. Busca-se apontar o avanço da lógica capitalista e suas consequências sobre essa atividade ainda tida pelos profissionais como artesanato. Para tanto recorremos a Fotoetnografia. Como destacou Martins (2014), as dificuldades em tomar a imagem fotográfica como documento social envolve as mesmas dificuldades que existem quando tomamos a palavra falada como referência sociológica; da mesma forma em que as narrativas dos entrevistados vêm carregadas de interpretações de quem fala, a imagem traz o olhar do fotografo, fruto de suas complexas escolhas, estando esta contaminada por sua presença. No entanto, a fotografia pode ser flagrante, revelando as insuficiências das palavras como documento da consciência social e como matéria-prima da sociologia. Nesse sentido, imagens e textos podem complementar-se e conduzir o expectador/leitor a uma compreensão maior do objeto analisado, assim como possibilitar leituras para além daquelas observadas pelo sociólogo ou antropólogo, o que torna a Fotoetnografia uma prática promissora para o estudo das manifestações culturais (BODART, SILVA, 2015). No ensaio aqui proposto os registros fotográficos são autorais e realizados após algumas entrevistas aos atores sociais em cena. Os registros - envolvendo o local, o vestuário e as poses - foram realizados a partir das propostas dos próprios fotografados, o que nos revela, em parte, como enxergam seu ofício e/ou como desejam que o mesmo seja enxergado. A descrição das fotos foram elaboradas com participação dos fotografados, sendo por algumas vezes utilizadas expressões populares próprias do grupo registrado (identificado por meio de aspas). Dentre diversos aspectos que esse ensaio fotoetnográfico suscita, está uma análise sob o viés da Sociologia do Trabalho, no qual evidencia a pressão da lógica produtiva capitalista destacada por Harvey (2008), a qual tem sido incorporada pelos artesãos para fazer frente ao mercado de bibelôs industrializados presentes nas feiras de artesanatos da cidade.

Palavras-chave


Sociologia do Trabalho; Fotoetnografia; Antropologia do Trabalho; Artesãos

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Referências


BODART, Cristiano das Neves; SILVA, Rochele Tenório. Fabricante e remendador de redes de pesca: um olhar a partir da Etnografia Visual. Iluminuras, Porto Alegre, v. 16, n. 37, p.272-296, jan/jun. 2015. Disponível em: < http://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/53151/32905> Acessado em: 11 ago. 2015.

HARVEY, David. Condição Pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

MARTINS, J. de S. Sociologia da Fotografia e da Imagem. 2ª ed. São Paulo, Contexto, 2014.


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